O que Comer num Restaurante Local na Tailândia: Guia Real
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Era coreana a viver na Coreia, mas em 2022 passei algum tempo em Ban Khai, Rayong, na Tailândia, e havia noites em que entrava naturalmente num destes restaurantes locais tailandeses para jantar. Quando se fala de comida tailandesa, muita gente pensa logo em pad krapao mu sab, yam wun sen ou som tam, mas na prática, um restaurante local tailandês funciona mais como uma refeição partilhada — vários pratos no centro da mesa — do que um prato por pessoa. Este artigo não é uma crítica exagerada a um restaurante específico. É um registo real de que tipo de comida aparece quando se entra num restaurante local tailandês durante uma viagem ou estadia, e quais os pratos mais acessíveis para quem vai pela primeira vez. Na altura estava com a minha mulher, e este restaurante em particular não foi uma visita única — voltámos alguns dias depois.
Num restaurante local tailandês, a atmosfera começa lá fora

À noite via-se de longe. Não tinha o ar de uma tasquinha pequena na beira da estrada — era mais o feitio de um restaurante de bairro onde se vai de carro jantar sossegado. As cores branco e azul, bem vivas, faziam com que o olhar pousasse lá quase sem querer.

Ao chegar mais perto, a atmosfera ficava mais nítida. Não era um sítio demasiado degradado, mas também não tentava parecer caro sem ter razão para isso. Havia já clientes sentados lá dentro, e isso ajudou imenso — quando um restaurante está vazio dá sempre um certo hesitar, mas quando se vê gente sentada, a sensação é logo outra. Fica-se logo mais à vontade para entrar.

Por dentro era mais arrumado do que eu esperava. A estrutura era semi-aberta, sem aquela sensação de sufoco, e as mesas não estavam todas amontoadas umas nas outras. Tem aquela leveza característica dos restaurantes tailandeses, mas sem o caos. É o tipo de sítio onde se fica sentado um pouco mais do que o necessário, sem pressa de ir embora.
O menu que fotografei em 2022 diz muito sobre o restaurante

A partir daqui, o que mostro é com base no menu que fotografei em 2022 diretamente no restaurante. Pode não ser exatamente igual hoje, mas serve bem para perceber que tipo de comida tailandesa este sítio oferecia. O restaurante chamava-se Tam Tem Toh (ตำ-เต็ม-โต๊ะ) e não era apenas especializado em som tam — tinha yam, fritos, grelhados, pratos com arroz e sopas, tudo junto no mesmo sítio.

Esta página já dá algum alívio a quem vai pela primeira vez. Há pratos cujo nome já diz tudo — frango grelhado, entrecosto grelhado, carne de porco frita. Comida tailandesa não é tudo estranho e difícil; há pratos assim que entram de forma bastante tranquila, mesmo sem experiência prévia.

Do outro lado já sobe um pouco mais o registo isan. Saladas picantes, sopas, pratos que podem dividir opiniões — tudo visível ao mesmo tempo, o que dá logo a sensação de como é que os tailandeses constroem uma refeição. Para quem vai pela primeira vez, começar pelos pratos com fotografia no menu é mesmo a escolha mais sensata. Escolher só pelo nome pode ser uma aventura desnecessária.
Se é a primeira vez, assim é mais fácil fazer o pedido
Um prato com arroz é quase sempre boa ideia ter na mesa. O Pad Krapao Mu Sab (ผัดกะเพราหมูสับ) funciona como âncora da refeição — com ele, a mesa fica logo muito mais equilibrada.
Um prato fresco ou azedo também faz falta. O Yam Wun Sen (ยำวุ้นเส้น) é uma boa escolha; se for mesmo a primeira vez, o Som Tam Thai (ส้มตำไทย) é ainda mais acessível e menos desafiante.
Um frito ou grelhado funciona quase como rede de segurança. O Tod Mun Kung (ทอดมันกุ้ง) ou uma carne de porco frita fazem a mesa parecer muito menos estranha para quem não está habituado.
Uma sopa é opcional, mas quando há muitos pratos picantes na mesa, ter uma sopa ajuda a descansar o palato no meio da refeição. Na prática, é ela que permite continuar a comer sem se sentir a arder.
A primeira visita: uma combinação segura e equilibrada

Não foi uma visita única. Depois de comer aqui pela primeira vez, voltámos dias depois — o menu tinha variação suficiente para isso. Na primeira visita pedi yam wun sen (ยำวุ้นเส้น), tod mun kung (ทอดมันกุ้ง), pad krapao mu sab (ผัดกะเพราหมูสับ) e um prato de porco frito. Algo azedo, algo que combina bem com arroz, algo frito. Com esta base, quem vai pela primeira vez raramente se perde.

Na segunda visita fui mais para o lado local. Voltei a pedir o yam wun sen, mas no som tam escolhi o som tam poo pla ra (ส้มตำปูปลาร้า). A sopa à direita era uma sopa picante com pés de galinha. A diferença entre as duas visitas era muito nítida: a primeira mesa era acessível a quase toda a gente; a segunda já tinha muito mais carácter local e exigia mais do paladar.
O Tod Mun Kung (ทอดมันกุ้ง) é muito mais fácil do que parece pelo nome



Pedir o tod mun kung (ทอดมันกุ้ง) nesse dia foi das melhores decisões. Pelo nome não se percebe logo o que é, mas quando chega à mesa toda a gente percebe — é o tipo de prato para o qual a mão vai logo. Por fora estaladiço, por dentro firme e elástico. Perfeito para comer a meio dos pratos mais picantes. Mesmo levando alguém à Tailândia pela primeira vez, este prato raramente falha.
O tod mun kung é essencialmente massa de camarão frita, por isso o sabor é bastante direto. Não há fermentação nem ervas intensas a dominar — o que manda é a textura estaladiça e o sabor do camarão, o que o torna muito acessível.
É fácil confundir tod mun kung com tod mun a secas, mas são diferentes. O tod mun kung é mais acessível; o tod mun normal usa massa de peixe e tem um perfil de sabor mais intenso e mais local. Para quem vai pela primeira vez, começar pelo tod mun kung é claramente o melhor caminho.
O Yam Wun Sen (ยำวุ้นเส้น) era o prato que equilibrava a mesa



O yam wun sen (ยำวุ้นเส้น) foi um dos pratos que voltei a pedir na segunda visita — se tivesse sido uma escolha descartável, não teria repetido. Quando se come muito carne ou fritos, a mesa fica pesada depressa; este prato resolve isso. Tem macarrão de vidro, por isso à primeira pode parecer familiar, mas o feitio é completamente diferente. Não é salteado — é mais uma salada temperada com um molho azedo e salgado, algo a meio caminho entre uma salada e um prato frio de massa.
Este prato é bastante ácido. A lima chega logo ao primeiro garfo. Por isso, se alguém está à espera de um prato de macarrão adocicado, a primeira colherada pode surpreender. Mesmo assim, para um paladar europeu, não é difícil de apreciar. É muito mais acessível do que pratos com sabores fermentados fortes, e os ingredientes não são estranhos. A única variação a ter em conta é o picante — há sítios onde entra de forma suave e outros onde é bastante intenso, por isso vale a pena perguntar antes de pedir.
O Pad Krapao Mu Sab (ผัดกะเพราหมูสับ): percebe-se logo porque toda a gente o pede



O pad krapao mu sab (ผัดกะเพราหมูสับ) é um dos pratos que raramente falta num restaurante tailandês, e percebe-se porquê logo na primeira garfada. Carne de porco picada salteada com alho, pimenta e folhas de krapao — o manjericão tailandês — comida com arroz. A descrição é simples, mas o sabor não é nada simples. É salgado, com um umami bem definido, e vai tendo um picante subtil que nunca deixa a colher parar. É o tipo de prato que faz o arroz desaparecer a uma velocidade impressionante.
O aroma do krapao pode ser ligeiramente estranho no início — é diferente do manjericão italiano que se conhece em Portugal. Se as folhas parecerem demasiado intensas, podem comer-se à parte sem grande perda — a base do salteado é suficientemente boa para sustentar o prato. O picante varia de restaurante para restaurante: há sítios onde é agradavelmente temperado e outros onde é bastante forte. No geral, é um dos pratos de comida tailandesa mais acessíveis para quem não tem experiência. Se me pedissem para indicar um único prato de um restaurante tailandês local, seria este.
Na segunda visita, os pratos mais locais chamaram mais a atenção
A segunda visita tinha uma energia diferente. Se na primeira fui pelo mais seguro, na segunda a mão foi naturalmente para o que os tailandeses comem com mais frequência. Quando se vai ao mesmo restaurante duas vezes, percebe-se melhor o que é que o sítio tem de especial. E a diferença mais clara foi precisamente no som tam — a escolha que fiz desta vez era completamente outra.
O Som Tam Poo Pla Ra (ส้มตำปูปลาร้า) é um prato para quem já tem alguma prática



Este é o som tam poo pla ra (ส้มตำปูปลาร้า). Os tailandeses comem-no com muita frequência, mas para quem vai à Tailândia pela primeira vez é, sendo honesto, um prato com algum desafio. É a salada de papaia verde temperada com picante e ácido, mas aqui entra também caranguejo e o sabor do pla ra — um molho de peixe fermentado — e isso faz toda a diferença. Deixa de ser uma salada fresca e passa a ser algo com legumes crocantes e um fundo intenso de fermentado muito presente. Não me apeteceu chamar-lhe o kimchi tailandês porque seria demasiado redutor. Para quem conhece bem a cozinha coreana, seria mais próximo de uma salada de rabanete com muito mais fermentado — uma referência que talvez ajude a situar o perfil de sabor.
Se é a primeira vez com som tam, o Som Tam Thai (ส้มตำไทย) é muito mais fácil. O equilíbrio entre doce e ácido é agradável e entra bem logo no início de uma viagem à Tailândia, sem grande susto.
O Som Tam Poo Pla Ra (ส้มตำปูปลาร้า) tem um perfil fermentado muito mais intenso. Não é só mais picante — é um sabor mais profundo e mais local. A sugestão é conhecer bem o som tam thai primeiro, e só depois avançar para esta versão. A diferença é real e vale a pena fazer essa progressão.
Foi depois de me habituar um pouco à comida tailandesa que o som tam poo pla ra começou a fazer mais sentido. À primeira pode não perceber-se o entusiasmo, mas com mais visitas começa-se a entender porque é que os tailandeses procuram este sabor no dia-a-dia. É honesto dizê-lo: para uma primeira experiência, o nível de dificuldade é real. Não é algo a esconder.
Os acompanhamentos que partilhámos tinham este feitio

Também pedimos um prato de porco frito. Não precisa de muita explicação — é o tipo de prato para o qual a mão vai quase automaticamente quando está na mesa. Ótimo para levar alguém que nunca provou comida tailandesa e quer um ponto de apoio familiar.

Pedimos também uma sopa com pés de galinha. Não vou detalhar muito este prato aqui — fica a nota de que nos restaurantes locais tailandeses é comum ter uma sopa na mesa junto com os outros pratos. Para quem gosta de pés de galinha, é uma escolha fácil e reconfortante.

E esta foi a sopa clara que mencionei antes. No geral era mais suave e menos intensa, o que serviu bem de pausa entre os pratos mais picantes. Não foi o prato mais memorável da mesa, mas cumpriu exatamente o papel de equilibrar tudo — e numa refeição com muito picante, isso tem o seu valor.
O que se aprende quando se come num restaurante local tailandês de verdade
Os restaurantes locais tailandeses têm uma variedade de menu maior do que muita gente imagina. Ficar só pelo prato mais famoso e ir embora é perder metade do que estes sítios têm para oferecer. Há pratos como o yam wun sen que alegram a mesa sem a sobrecarregar, há o pad krapao mu sab que faz o arroz desaparecer, há o tod mun kung que funciona para praticamente qualquer pessoa à mesa. E depois há pratos como o som tam poo pla ra que só revelam o seu charme quando já se tem alguma familiaridade com a cozinha tailandesa.
Os nomes podem parecer difíceis ao início, mas misturar bem os pratos acessíveis com os mais intensos faz toda a diferença. Eu percebi isso claramente ao ir duas vezes ao mesmo restaurante. Na primeira visita, os pratos mais seguros fizeram bem o seu trabalho; na segunda, os sabores mais locais ficaram em evidência. Se durante uma viagem à Tailândia entrar num restaurante local, a sugestão é não ir logo pelos pratos mais desafiantes — começar pelo que é mais acessível, ganhar confiança, e depois aprofundar. É a forma de ficar com menos dúvidas e com mais memórias que valem a pena.
Este artigo foi publicado originalmente em https://hi-jsb.blog.