CategoriaComida
IdiomaPortuguês (Portugal)
Publicado23 de abril de 2026 às 12:00

Frango frito às 6 da manhã: o KFC da Coreia é outro mundo

#frango frito estaladiço#batatas fritas com trufa#restaurante 24 horas
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Não havia plano nenhum. Em abril de 2026, dei por mim de madrugada com uma vontade súbita de comer frango frito e saí de carro com a minha mulher sem pensar duas vezes. Sou coreano, vivo em Daejeon, uma cidade grande a cerca de hora e meia a sul de Seul, e costumo ir ao KFC coreano com alguma frequência. O que acontece é que o KFC na Coreia tem um menu completamente diferente do de outros países. Há frango frito estaladiço com tempero coreano, hambúrgueres que só vendem cá, e até batatas fritas com trufa que não existem em mais lado nenhum. É o mesmo KFC, mas quando se entra numa loja na Coreia, desde o painel do menu que já se sente a diferença. Vou mostrar-vos com fotografias como é a cultura do frango frito aqui, como funciona um restaurante de fast food na Coreia e o que comemos nessa madrugada num KFC aberto 24 horas.

Primeiro, o recibo

Recibo do KFC coreano às 5h59 de 10 de abril de 2026 com frango frito 5 peças, cola média e batatas com trufa, total visível

O recibo do KFC coreano funciona como prova de toda a refeição, com data, hora e itens detalhados. Neste caso, mostra 10 de abril de 2026, às 5 horas e 59 minutos da manhã. Saímos de madrugada, chegámos, pedimos e, quando demos por nós, já quase eram 6 horas. Hot Crispy Chicken 5 peças por €9,70, Coca-Cola média por €1,30 e Truffle Chirr Fries por €1,50 — total de €12,50. A isto juntámos uma Zinger Burger que, com uma promoção por aderir à app, saiu a €0,60, e um Gat Yangnyeom Chicken desossado por €2,20. No total, ficou perto de €17 para os dois de madrugada, o que visto assim até tem piada. Mas quando se tem fome àquelas horas, a razão deixa de funcionar.

À procura de um KFC aberto de madrugada na Coreia

Fachada de um KFC 24 horas na Coreia com o letreiro aceso numa estrada escura de madrugada

Na Coreia, nem todos os KFC funcionam 24 horas, mas algumas lojas estão abertas a noite toda sem fechar. A que visitámos nesta noite fica perto da estação de metro da câmara municipal de Daejeon, uma cidade grande a hora e meia de Seul. De carro, demorámos uns 20 minutos desde casa, e lá fora estava completamente escuro, quase sem carros na estrada. O letreiro do KFC era a única coisa iluminada e, por estranho que pareça, dava uma certa sensação de alívio. Na Coreia, quando se tem um desejo de frango frito de madrugada, chama-se "yasik" — o equivalente a um lanche noturno tardio. Ter um restaurante 24 horas por perto é a salvação para esses impulsos.

Quiosques de autoatendimento na Coreia: o balcão está a desaparecer

Quiosque de autoatendimento com ecrã tátil dentro de um KFC coreano para fazer o pedido

Na Coreia do Sul, os quiosques de autoatendimento substituíram quase por completo os balcões tradicionais nos restaurantes de fast food, cafés e até cinemas. Quando se entra no KFC, a primeira coisa que se vê não é um balcão, mas sim ecrãs táteis. Hoje em dia na Coreia, não é só o KFC — restaurantes, cafés, cinemas, praticamente tudo funciona com quiosques para fazer o pedido. É raríssimo ver alguém a pagar em dinheiro e eu próprio nem sei quanto tenho na carteira. A Coreia está a caminhar rapidamente para uma sociedade sem numerário. Se quisermos pagar em dinheiro, ainda se pode ir ao balcão e pedir lá, mas quase ninguém o faz.

O quiosque suporta vários idiomas

Ecrã de seleção de idioma no quiosque do KFC coreano com bandeiras da Coreia, EUA, Japão, China e Taiwan

Nessa noite, quem fez o pedido foi a minha mulher. No canto superior direito do ecrã do quiosque há ícones de bandeiras e ela mudou para inglês para experimentar. Todos os nomes dos pratos e descrições apareceram em inglês sem qualquer problema. Para além do coreano, o sistema suporta inglês, japonês, chinês simplificado e chinês tradicional de Taiwan — 5 idiomas no total. Mesmo que não se saiba ler coreano, fazer o pedido não é complicado.

Com o telemóvel paga-se tudo

Pagamento por telemóvel com Samsung Pay no quiosque do KFC coreano, tecnologia contactless

O pagamento também ficou a cargo da minha mulher, mas não tirou nenhum cartão. Aproximou o telemóvel do terminal do quiosque com Samsung Pay e ficou pago num segundo. Ela já há bastante tempo que não anda com carteira. O Apple Pay também funciona, por isso tanto faz se se usa iPhone. Na Coreia, com o telemóvel paga-se em lojas de conveniência, restaurantes de fast food, metro, táxis — tudo. É como se em Portugal pudéssemos usar o MB WAY para absolutamente tudo sem exceção. Depois de nos habituarmos ao pagamento por telemóvel na Coreia, voltar ao dinheiro ou ao cartão físico torna-se impensável.

O ambiente do KFC de madrugada

Interior vazio de um KFC coreano de madrugada com cortinas vermelhas nas paredes
Luzes néon acesas num KFC completamente vazio às 6 da manhã na Coreia

De madrugada, a loja estava completamente vazia — como seria de esperar. Tinha cortinas vermelhas nas paredes e luzes de néon acesas, e estar ali sem vivalma àquela hora dava-lhe um ambiente bastante peculiar. Se estivesse sozinho, talvez até tivesse ficado um bocado intimidado, mas como estava com a minha mulher, deu-nos mais foi vontade de rir. Pelo menos, tirámos fotografias à vontade sem ninguém a olhar.

Hot Crispy Chicken 5 peças, o prato-estrela do KFC coreano

Tabuleiro com 5 peças de frango frito estaladiço Hot Crispy do KFC coreano e batatas com trufa ao lado

O Hot Crispy Chicken é o frango frito estaladiço com tempero picante que serve de referência no KFC da Coreia, e as Truffle Chirr Fries são batatas fritas com tempero de trufa exclusivas do mercado coreano. O primeiro pedido foram 5 peças de Hot Crispy e as batatas. Quando o tabuleiro chegou, cada peça de frango era bastante generosa. Agora, 5 peças por €9,70 não é propriamente barato. Nos restaurantes de frango frito de bairro na Coreia, um frango inteiro custa entre €10 e €12. Comparando assim, a relação qualidade-preço não é a melhor. Mas o panado estava bem agarrado, estaladiço como deve ser, com o tempero picante impregnado em toda a camada exterior. Em termos de sabor, valeu completamente a pena ter saído de carro àquela hora.

Mesa completa com frango frito, refrigerante em copo vermelho e batatas no tabuleiro vermelho do KFC coreano

Já sentados, era este o cenário. Frango, Coca-Cola e as batatas com trufa. No KFC coreano, o refrigerante vem num copo vermelho, e quem quiser reencher vai à estação de bebidas e serve-se.

O panado é mesmo diferente

Primeiro plano do panado grosso e irregular do frango estaladiço Hot Crispy do KFC coreano
Corte transversal de uma peça de frango frito coreano KFC, exterior estaladiço e interior suculento

Tirei fotografias de perto. Nota-se como o panado é grosso e tem uma textura bem irregular, cheia de picos e saliências. É esta a característica do Hot Crispy Chicken do KFC coreano: a superfície estaladiça é muito mais ampla, por isso quando se dá a primeira dentada, o som do crocante é completamente diferente. Por fora estaladiço, por dentro suculento, perfeito. Sendo de madrugada, pode ser que não fosse acabado de fritar, mas honestamente nem se notou. O tempero picante está metido entre cada dobra do panado, e à medida que se come, acaba-se a chupar os dedos sem dar por isso.

Peça grande de peito de frango frito coreano segurada com a mão, maior que a palma
Coxa de frango frito do KFC coreano segurada com a mão mostrando o tamanho generoso

Quando se agarra com a mão, percebe-se logo o tamanho real. Uma era peito, maior que a palma da mão, e a outra era coxa. O KFC coreano costuma dar peças bem generosas, por isso 5 peças foram mais que suficientes para os dois. A minha mulher escolhia só as coxas, ia direitinha a elas. Dizia que ao início não estava habituada a agarrar frango com osso e comê-lo com as mãos, mas agora é mais rápida do que eu.

Bebidas e sistema de refill no KFC coreano

Copo vermelho do KFC coreano com refrigerante servido sem palhinha, regulação ambiental

No KFC coreano, o refrigerante vem neste copo vermelho e, atualmente, sem palhinha. A Coreia implementou regulações ambientais bastante rígidas sobre produtos descartáveis e, dentro da loja, o normal agora é beber diretamente pelo copo. Antes davam palhinha, mas já não.

Aviso na estação de bebidas do KFC coreano: primeiro refill grátis, adicional tem custo
Máquina dispensadora de refrigerantes no KFC coreano com Coca-Cola, Sprite, Fanta e Dr Pepper Zero
Etiquetas de sabores no dispensador de bebidas do KFC coreano em pormenor

Esta é a estação de bebidas self-service. Antigamente o refill era ilimitado, mas agora só se pode reencher uma vez gratuitamente. O aviso diz que a partir do segundo refill é preciso pagar mais €0,30. Não sei como é noutros países, mas na Coreia a regra mudou para isto. As opções são Coca-Cola, Coca-Cola Zero, Sprite, Fanta e Dr Pepper Zero. Eu escolhi Dr Pepper Zero e a minha mulher Coca-Cola Zero. É que frango frito sem uma bebida com gás não é a mesma coisa, certo?

Truffle Chirr Fries, as batatas fritas exclusivas da Coreia

Batatas fritas com trufa do KFC coreano espalhadas no tabuleiro com pó de tempero amarelo e salsa
Primeiro plano das batatas fritas com trufa do KFC coreano mostrando a camada de tempero em pó

As Truffle Chirr Fries sabem melhor se as deitarmos diretamente no tabuleiro. Comê-las do saco não é a mesma coisa; assim espalhadas, vai-se alternando entre uma batata e um pedaço de frango, que é muito melhor. De perto, vê-se que a superfície de cada batata tem um pó de tempero amarelo e bocadinhos de salsa. Já vêm temperadas, por isso não dão ketchup à parte, e a verdade é que não faz falta. São salgadinhas com um toque de queijo que sobe ao palato, e se lhes pusermos ketchup, o sabor perde-se. São daquelas batatas fritas com trufa que não se encontram em nenhum outro KFC do mundo.

Pedido extra — Gat Yangnyeom Chicken e Zinger Burger

Embalagem da Zinger Burger e caixa do Gat Yangnyeom Chicken do KFC coreano com molho agridoce picante
Caixa aberta do Gat Yangnyeom Chicken do KFC coreano com frango desossado coberto de molho e luvas de plástico

As 5 peças não foram suficientes, por isso fizemos um pedido adicional. Juntámos a Zinger Burger, um hambúrguer com uma tortilha de frango frito estaladiço e tempero picante, e o Gat Yangnyeom Chicken, frango desossado envolvido em molho agridoce picante, que é um menu exclusivo do KFC coreano e não existe noutros países. Quando abrimos a caixa do Gat Yangnyeom, o molho escorria por todos os lados, abundante a sério. Até vinham luvas de plástico incluídas. Na Coreia, é normal que quando se pede frango com molho, deem luvas descartáveis para não se sujarem as mãos. A Zinger Burger custou €0,60 com a promoção da app e o Gat Yangnyeom saiu a €2,20.

O Gat Yangnyeom Chicken, para ser honesto, não era o meu género

Primeiro plano do Gat Yangnyeom Chicken do KFC coreano com molho castanho brilhante e pedaços de malagueta vermelha
Peça de Gat Yangnyeom Chicken levantada com o molho a escorrer em fios da caixa do KFC coreano

O molho cobria o frango por completo. Brilhava imenso — um molho castanho espesso que se acumulava no fundo da caixa, com pedacinhos de malagueta vermelha salpicados por cima. Ao provar, o que se sente primeiro é um sabor doce bem forte, e só depois sobe um picante suave por trás. Mas para ser honesto, não era o meu género. O molho era doce demais para o meu gosto. O Hot Crispy picante que tínhamos comido antes ganhava por larga margem. Para mim, esse é mesmo o melhor prato do KFC coreano, e defendo-o sem hesitação — pode competir com os restaurantes de frango frito de bairro na Coreia e sai a ganhar. O Gat Yangnyeom pode agradar a quem prefere sabores doces, mas se o que se gosta é de frango estaladiço e picante, nem vale a pena pedir.

A Zinger Burger: de madrugada pode desiludir

Embalagem da Zinger Burger do KFC coreano com o logótipo ZINGER visível no papel
Zinger Burger do KFC coreano aberta mostrando a tortilha de frango frito, alface e maionese

A Zinger Burger. Na embalagem diz ZINGER em letras grandes, reconhece-se logo. Por dentro é bastante simples: uma tortilha de frango frito estaladiço, alface e maionese. E esta também foi um bocadinho dececionante, para ser sincero. Trinquei-a assim que chegou e não estava quente, era mais morna. A tortilha de frango estava bem cozinhada, mas a temperatura dava a sensação de que tinha sido montada algum tempo antes. Provavelmente, como era de madrugada e havia poucos pedidos, não a fizeram na hora. De dia, acabada de montar, de certeza que seria outra coisa. Mas pronto, paguei-a a €0,60 com a promoção, por isso também não havia muito de que queixar.

Nos restaurantes de fast food na Coreia, és tu que arrumaras a mesa

Tabuleiro do KFC coreano depois de comer com apenas ossos de frango frito restantes

Quando acabares, não te levantes e saias sem mais nem menos

Nos restaurantes de fast food na Coreia, é obrigação do cliente arrumar a sua própria mesa depois de comer. Pegas no tabuleiro, deitas os restos de comida no caixote de orgânicos, o papel e embalagens no caixote do lixo normal, e pousas o tabuleiro no suporte de devolução. Se deixares tudo em cima da mesa e fores embora, os olhares à volta são pesados. Isto não é só no KFC: no McDonald's, Burger King, Lotteria, praças de alimentação e cafetarias self-service, a regra é exatamente a mesma.

O tabuleiro ficou só com ossos e, curiosamente, isso até deu uma certa satisfação. Os dois demos cabo das 5 peças de frango, do Gat Yangnyeom Chicken, da Zinger Burger e das batatas com trufa. Lá fora ainda estava escuro, mas tínhamos a barriga cheia — só faltava chegar a casa e cair na cama.

Como funciona a estação de arrumação para clientes

Estação de separação de lixo e devolução de tabuleiros no KFC coreano com secções separadas

Esta é a estação onde os clientes organizam tudo. À esquerda pousa-se o tabuleiro, os restos de comida vão no buraco do meio e os copos colocam-se à direita. Em baixo, há compartimentos separados para lixo normal e plástico reciclável. O aspeto muda um pouco de loja para loja, mas a estrutura básica é igual em todas. Nos restaurantes de fast food na Coreia, os funcionários não levantam a mesa — cada cliente leva as suas coisas até esta estação e separa tudo. Faz parte da cultura.

Sinalização em coreano e inglês indicando onde pousar o tabuleiro na estação do KFC coreano
Sinalização em coreano e inglês indicando onde colocar copos e despejar líquidos no KFC coreano
Sinalização em coreano e inglês indicando onde pousar o cesto na estação do KFC coreano

Cada secção tem letreiros a indicar o que vai onde. Diz "tabuleiro", "copos", "local para despejar líquidos", "cesto", tudo em coreano com a tradução em inglês ao lado. E mesmo que não se leia nenhum dos dois idiomas, os desenhos que acompanham cada letreiro são tão claros que basta parar em frente à estação para se perceber tudo de imediato.

Estação do KFC coreano com tabuleiro, cesto e copo vermelho corretamente organizados depois de comer

Assim fica quando se acaba de arrumar tudo. O tabuleiro à esquerda, o cesto ao meio, o copo vermelho na secção dos copos à direita. Em 10 segundos está feito.

Resumo de tudo o que comemos

Eis o resumo. As 5 peças de Hot Crispy Chicken custaram €9,70 e foram o melhor de toda a noite: picantes, estaladiças, satisfação total. As Truffle Chirr Fries a €1,50 valeram cada cêntimo, o tempero de trufa bastava e não precisavam de mais nada. O Gat Yangnyeom Chicken desossado custou €2,20, mas o molho era doce demais para o meu gosto e não voltaria a pedir. A Zinger Burger saiu a €0,60 com a promoção da app, por isso não se perdeu nada, embora a temperatura morna de madrugada a tenha deixado a dever. Da próxima vez que for de dia, dou-lhe outra oportunidade.

Saímos de carro de madrugada, comemos frango frito estaladiço até rebentar, arrumámos a mesa e voltámos para casa. Não me arrependo de nada. Se tens curiosidade sobre o KFC coreano, pára em frente a um quiosque e experimenta. Tem opção em inglês, japonês e chinês, e com o telemóvel faz-se o pedido e o pagamento sem complicações. Todos os preços que aqui coloquei são referentes a abril de 2026.

Este artigo foi originalmente publicado em https://hi-jsb.blog.

Publicado 23 de abril de 2026 às 12:00
Atualizado 23 de abril de 2026 às 12:10