Marmita Coreana a 4€ com 10 Acompanhamentos — Vale a Pena?
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18 itens
Duas da manhã e fome: a ida à loja de conveniência
Abril de 2026, Daejeon — uma cidade no centro da Coreia do Sul, a cerca de hora e meia de Seul. Eram umas duas da manhã quando a fome apertou e abri o frigorífico, mas àquela hora não me apetecia nada cozinhar. A minha mulher estava ocupada e eu não ia pedir-lhe que fizesse nada, e preparar arroz só para mim àquela hora pareceu-me um exagero. Abri a app de entregas, mas a essa hora não havia um único restaurante disponível — nem frango, nem comida chinesa, nada. Acabei por calçar uns chinelos e caminhar cinco minutos até à GS25 mais próxima de casa.
Foi aí que me chamou a atenção a marmita Hyejarowun Hansang Gadeuk, edição 2 — uma marmita pronta de conveniência com vários acompanhamentos. Da última vez que tinha experimentado uma destas marmitas coreanas, tinha ficado agradavelmente surpreendido, por isso voltei a arriscar. Custou 5.900 won, o equivalente a cerca de 4 euros, e levei também uma bebida. Às duas da manhã, uma loja de conveniência aberta 24 horas é literalmente a única forma de comer uma refeição quente.
O aspeto exterior e as informações do rótulo

Na embalagem da marmita aparece a fotografia de Kim Hyeja — uma atriz coreana muito acarinhada pelo público, cujo nome dá origem ao trocadilho "hyejarowun", que em coreano significa "generosa" — acompanhada da frase "Para os dias em que tens saudades de uma refeição caseira quentinha, come bem". Ler isto sozinho às duas da manhã teve um efeito estranhamente reconfortante. No rótulo: preço de 5.900 won (≈ 4€), peso de 479 gramas e 818 quilocalorias. A marmita anterior que tinha provado custava 5.400 won, portanto houve um aumento de cerca de 50 cêntimos, mas o conjunto de acompanhamentos parecia mais variado, o que me deixou com boas expectativas ao voltar para casa.
Ao abrir a tampa

Retirei o selo e levantei a tampa: sobre o arroz, uma fatia generosa de Spam ocupava o espaço central, e do lado esquerdo uma carne com molho vermelho picante preenchia dois compartimentos, com uma porção que parecia razoável. Na parte de cima, dois ovos de codorniz, kimjaban (flocos de alga nori triturados e salteados com tempero — um acompanhamento típico coreano), pedaços de fritura temperada, rebentos de soja, omelete e mais. Não havia um único compartimento vazio.
Vista de cima sem a película: os dez compartimentos


Depois de retirar a película protetora, olhei de cima para baixo. São dez compartimentos, todos preenchidos. Ao centro, o maior, com arroz e Spam; à esquerda, dois compartimentos de carne vermelha picante; na fila de cima, eomuk salteado (um preparado de peixe prensado típico coreano), pedaços de fritura, kimchi salteado, rebentos de soja, omelete, ovos de codorniz e kimjaban. Para uma marmita de conveniência a cerca de 4€, a composição parecia generosa — embora os compartimentos não fossem muito fundos, por isso a quantidade real só se descobriria ao comer. Cheguei a casa, meti a marmita no micro-ondas durante 2 minutos e 30 segundos e sentei-me à mesa.
Cada acompanhamento, provado um a um
Frango, kimchi salteado e batata frita em palitos

No compartimento da esquerda havia um frango que não era bem dakgangjeong (frango coreano com molho agridoce) nem frango frito clássico — algo a meio caminho entre os dois. A textura não era dura nem mole, um ponto intermédio curioso, mas para frango aquecido no micro-ondas achei bastante aceitável. Ao lado, kimchi salteado e batata cortada em tiras finas e salteada, lado a lado, embora a batata tivesse migrado para o compartimento do kimchi — deve ter-se mexido no caminho para casa. O kimchi salteado tinha sido o melhor acompanhamento da marmita anterior, por isso as expectativas estavam em alta.
Eomuk salteado e ovos de codorniz em molho de soja

Três pedaços de eomuk empilhados — o eomuk é um preparado coreano feito de peixe triturado e prensado em lâminas, cortado em retângulos e cozinhado lentamente em molho de soja. Tinham umas sementinhas de sésamo por cima, mas a cor era clara, sinal de que o tempero não seria muito forte. Logo abaixo, dois ovos de codorniz em molho de soja, o chamado jangjorim. Dois ovos significam um por dentada, e pronto, acabou — fiquei com vontade de mais.
Espinafres temperados

Os espinafres vinham preparados à moda coreana: escaldados e temperados com óleo de sésamo, sal e sésamo moído — um acompanhamento clássico chamado sigeumchi-namul. Nesta marmita, o molho de soja foi generoso, o que deixou os espinafres quase pretos e bastante salgados, pelo que era melhor comê-los com arroz para equilibrar o sabor. A quantidade dava para uma dentada, talvez duas, mas no meio de tantos acompanhamentos mais gordos e pesados, cumpriram bem o papel de limpar o palato.
Jeyuk-bokkeum — saboroso, mas pouco

O jeyuk-bokkeum é carne de porco salteada num molho picante à base de gochujang (pasta de malagueta fermentada coreana). Peguei num pedaço com os pauzinhos e vi cebolinho e sementes de sésamo agarrados; ao pôr na boca, o sabor picante e salgado espalhou-se logo. É daqueles acompanhamentos que pedem automaticamente uma colherada de arroz a seguir — o problema é que, com tantos compartimentos, este prato principal acaba por não receber o destaque que merecia. Eram três ou quatro pedaços no total, e em duas ou três dentadas já se via o fundo.
Fiambre salteado com ketchup — cuidado com o arroz

Aqui temos fatias finas de fiambre salteadas num molho semelhante a ketchup. Ao provar, o salgado chega antes do doce. Sem arroz, é demasiado salgado, por isso convém acompanhar com uma boa colherada de arroz para equilibrar. Ora, o jeyuk-bokkeum já tinha "roubado" bastante arroz, e este acompanhamento fazia o mesmo — dez compartimentos de acompanhamentos mas apenas um de arroz, e a certa altura comecei a pressentir que o arroz não ia chegar ao fim.
Mandu com molho — sinceramente, foi o pior

Os mandu são os ravioli coreanos. Neste caso, vieram cobertos com um molho agridoce e picante, e sinceramente foi o acompanhamento mais fraco da marmita toda. O mandu em si era um vulgar mandu de carne, perfeitamente aceitável, mas aquele molho ali por cima não combinava nada. Se o tivessem deixado simples, ao menos podia-se molhar em molho de soja e pronto. Pelo que vi, estes mandu com molho aparecem também noutras edições da série Hyejarowun, e na minha opinião, aquele espaço ficava muito melhor com mais kimchi salteado.
O Spam sobre o arroz e o momento em que o arroz começa a faltar


O Spam — aquele fiambre de porco enlatado que na Coreia é praticamente um ingrediente nacional, servido sobre arroz ou dentro de sopas e guisados. Depois de aquecer, a gordura começou a brilhar nas bordas e o cheiro salgado subiu logo. Uma dentada com arroz e... simplesmente bom, sem complicações. Mas era uma única fatia, por isso mesmo comendo devagar, em três ou quatro dentadas já não havia mais.
Ao levantar com os pauzinhos, percebi que a fatia tinha uma espessura razoável. Comparado com o Spam que costumo comer, pareceu-me menos salgado — não sei se foi propositado para a marmita ou se usaram outra variante, mas agradeceu-se. Toda a marmita já puxava para o salgado, e se o Spam também fosse muito forte teria sido demais. Com arroz, o que sobressai é um sabor amanteigado e suave.
O último pedaço de jeyuk-bokkeum

O último pedaço de jeyuk-bokkeum. O sabor continuava tão bom como o primeiro, mas era mesmo o fim. Ainda me restava mais de metade do arroz e o melhor acompanhamento já tinha acabado — deu uma certa frustração.
Dakgangjeong — para marmita de conveniência, aprovado

Peguei num pedaço de dakgangjeong — frango com molho agridoce. Estaladiço não estava, claro, depois de ir ao micro-ondas era impossível. Mas em vez de ficar encharcado, tinha uma textura macia e agradável de mastigar, e por dentro havia frango a sério. O molho era adocicado e estava bem impregnado na carne. Para um acompanhamento de marmita de conveniência, chegou e sobrou.
Mandu com molho, segunda tentativa — confirmou-se

Voltei a pegar num mandu com molho, numa última tentativa, e confirmou-se: o problema é mesmo o molho. A massa do mandu absorveu-o e ficou encharcada, e o recheio por dentro é apenas carne sem grande expressão. No conjunto, fica insípido e sem graça. Se aquele compartimento tivesse outro acompanhamento qualquer, a satisfação geral da marmita teria subido consideravelmente — mas pronto, é o que é.
Prazo de validade e controlo de qualidade — por que razão estas marmitas são seguras

No rótulo da marmita constam a data e hora de fabrico e o prazo de consumo. Esta foi fabricada a 26 de abril de 2026, às 8h da manhã, com prazo de consumo até 28 de abril, às 8h. Passado esse prazo, o código de barras deixa de ser lido na caixa registadora e a compra torna-se literalmente impossível. Isto significa que todas as marmitas na prateleira estão dentro da validade — desde que a refrigeração esteja a funcionar corretamente, não há motivo para preocupações com a qualidade. A cor do rótulo muda consoante o turno de fabrico — vermelho ou azul — o que ajuda os funcionários da loja a gerir a rotação dos produtos.
Marmita Hyejarowun Hansang edição 2: o veredicto final
Sejam duas ou quatro da manhã, desde que haja stock, está disponível. Em casa, bastam 2 minutos e 30 segundos de micro-ondas para ter uma refeição quente. Os preços subiram, sim, mas cerca de 4 euros continua a ser mais barato do que comer fora na Coreia. Poder provar mais de dez acompanhamentos diferentes numa única refeição é o grande trunfo desta série, e o facto de o sistema de caixa bloquear automaticamente a venda após o prazo de consumo dá uma tranquilidade extra.
Ter muitos acompanhamentos também significa que nem todos vão agradar. Desta vez, os mandu com molho foram a desilusão. É uma questão de gosto pessoal, mas convém contar com a possibilidade de um ou dois compartimentos falharem. E como são muitos acompanhamentos, a quantidade de cada um acaba por ser quase simbólica — quando o melhor, como o jeyuk-bokkeum, se esgota em três ou quatro pedaços, fica inevitavelmente a saber a pouco. Dito isto, o nome Hyejarowun Hansang Gadeuk significa literalmente "mesa generosa e farta", e a ideia é mesmo oferecer um pouco de tudo. Nesse aspeto, a marmita cumpre o que promete.
Três da manhã, a arrumar a marmita vazia
Acabei de comer e pousei a embalagem vazia na bancada da cozinha. Olhei para o relógio: passavam das três da manhã. Tinha saído de chinelos há pouco mais de uma hora sem vontade de cozinhar, e ali estava eu — de barriga cheia e sem loiça para lavar. Apaguei a luz e enfiei-me debaixo dos lençóis a pensar que no dia seguinte havia de cozinhar a sério. Mas, no fundo, eu sabia perfeitamente que o dia seguinte ia ser igual.